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O Brasil quer energia nuclear?

Posted at 22/03/2011 | By : | Categories : Notícias | Comentários desativados em O Brasil quer energia nuclear?

O Brasil quer energia nuclear?

Fonte: Mercado Ético – Ana Carolina Amaral, da Envolverde

Não foi só para a França, onde 80% da energia vem de usinas nucleares, que o acidente de Fukushima gerou ansiedade. O Congresso Brasileiro já convocou a Eletronuclear, empresa responsável pelas nossas usinas atômicas, para apresentar a situação do país quanto à segurança nuclear.

As informações sobre essa preocupação brasileira surgiram após a mesa-redonda realizada na Universidade de São Paulo, na ocasião de lançamento do livro “Energia nuclear: do anátema ao diálogo”, organizado pelo economista e professor da FEA-USP José Eli da Veiga. O debate já estava na agenda há alguns meses, mas o acidente japonês fez um público intrigado lotar o auditório da Faculdade de Economia e Administração da USP.

De um lado, o físico do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, José Goldemberg, pediu calma. “Devemos acompanhar essa tecnologia, mas não temos urgência em ampliar nosso parque nuclear”, considerou, pedindo também mais prudência por parte do governo brasileiro. Ele lembra que coisas bem menores que um tsunami já seriam capazes de “provocar” um reator – afinal não foi propriamente o terremoto, mas a interrupção na corrente elétrica o que impediu o resfriamento dos reatores em Fukushima.

“A tecnologia é traiçoeira”, ele alerta antes de arrematar. “O sistema elétrico falha em Itaipu por causa de um raio. É a anedota brasileira”.

Do outro lado do debate está o engenheiro da Eletronuclear Leonam dos Santos Guimarães, que defende o uso de energia nuclear como complementar à hidrelétrica. Segundo ele, o Brasil é o mais modesto país do grupo do BRIC no planejamento de usinas nucleares. “Essa modéstia é um bom sinal: a energia limpa e barata das hidrelétricas continuará predominando”, posiciona-se Leonam, frisando que o seu uso é complementar ao citar o Plano Nacional de Energia 2030, ano para o qual é previsto um aumento de 57000MW de geração de energia de fonte hidrelétrica, enquanto o acréscimo de nuclear deve ser de 4000MW – figurando próximo das previsões para a eólica (mais 3000MW) e biomassa (mais 4500MW).

O engenheiro também alegou que o Brasil tem a 5ª maior reserva de urânio do mundo e é um dos poucos que junto a essa abundância possui a tecnologia para aproveitá-la – só os Estados Unidos e a Austrália também têm a combinação.

No mundo, a nuclear já representa 16% da produção de energia e ainda estão em construção mais 45 usinas e em planejamento outras 47. No Brasil, há estudos para uma instalação no Nordeste, com seis reatores, potência de 6600 MW e investimento previsto de R$ 10 bilhões. A construção de Angra 3, que está em andamento e deve ser concluída até 2015, é alvo de protestos da ONG Greenpeace, embalados pelo susto provocado por Fukushima. Perguntado sobre essa campanha, Leonam ignorou o relatório [R]evolução Energética – publicado pela ONG como alternativa brasileira para uma geração de energia limpa e segura, baseada em renováveis e reforçada pela eficiência nos processos de transmissão. Respondeu apenas que a posição da ONG é “permanentemente ideológica”, acrescentando que ele é “contra radicalismos.”

Enquanto Leonam usa em sua defesa o fato de um dos fundadores do Greenpeace, Patrick Moore, ter afirmado que “a água e o átomo são o par perfeito”; Goldemberg acusa de ser justamente o balanço de carbono da energia nuclear o grande problema. “Ela conquista ecologistas por ser carbono zero”, lamenta o físico, citando James Lovelock, pai da teoria de Gaia, entre os entusiastas que tinham medo do aquecimento global. “Ora, o aquecimento global será um desastre daqui cem anos, a nuclear pode trazer um desastre imediato”, compara, ao que alguém na platéia levanta a mão e aponta que após o acidente de Chernobyl “a natureza se recuperou com mais exuberância”. A resposta de Goldemberg esclarece sua preocupação. “Seres humanos são diferentes de plantinhas.”

Condenar a energia nuclear não é uma tarefa difícil, já que os conhecimentos acerca da segurança e da disposição de resíduos atômicos seguem nebulosos. Mas Goldemberg argumenta com ousadia. Primeiro, ele desmitifica a suposta relação linear entre PIB e consumo de energia; depois, livra do anátema a construção da hidrelétrica de Belo Monte. “A previsão de se desmatar 500km2 não é grave se considerarmos que 5000km2 da Amazônia são desmatados anualmente”, assinala.

A preferência dos brasileiros por Belo Monte, por nuclear ou por energia solar captada do Espaço (como visionou Eli da Veiga em entrevista após o debate) deveria ser levada em conta nos planejamentos energéticos do governo. A opinião é de Eli da Veiga, que perguntou à plateia repleta de pesquisadores e empresários do ramo quantos ali haviam respondido à consulta de opinião feita pela internet durante a elaboração do Plano de Energia brasileiro. Das quase três centenas presentes, quatro pessoas levantaram a mão. “Olha aí, falta democracia”, ele concluiu. “Hoje a gente fica sabendo por um tal de Lobão quantas usinas nucleares ele está pensando em fazer”, ironiza.

Questionado sobre a hipótese de o governo japonês ter camuflado a gravidade do acidente nuclear de Fukushima, Eli da Veiga responde que “o que vimos até agora é o contrário de Chernobyl” – onde o desastre, em solo antidemocrático, só foi anunciado dias depois de a radiação ter se expandido. “No Japão, o ministro se pronunciou quando o vazamento ainda era uma suspeita”, justifica.

Após Fukushima, o diálogo proposto por Eli da Veiga pouco se distanciou do anátema. Mas o que autor do livro defende não está no âmbito energético, mas no do diálogo. Eli da Veiga argumenta que “passam pelo Congresso questões bem menos importantes que o Plano de Energia brasileiro”. Então, que os brasileiros também sejam representados pelos seus deputados na escolha do futuro energético do país. “Quero que a escolha, qual for, seja democrática.”

(Agência Envolverde)

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