Número de mulheres que trabalham em ocupações precárias cai nos últimos anos
Por martins • mar 8th, 2010 • Categoria: NotíciasNúmero de mulheres que trabalham em ocupações precárias cai nos últimos anos
Fonte : Mercado Ético
Roberta Lopes e Gilberto Costa, da Agência Brasil
Entre 1998 e 2008 o número de mulheres que trabalhavam em ocupações precárias passou de 48,3% para 42,1%, enquanto o número de homens que desempenhavam as mesmas passou de 31,2% para 26,2%, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgado nesta segunda-feira (8/2).
O Ipea considera ocupação precária aquela com renda inadequada, que está na informalidade ou não é remunerada.
No que diz respeito aos salários, os dados mostram que as mulheres ganhavam R$ 612,18 em 2002 e os homens, R$ 978,18. Seis anos depois, as mulheres passaram a ganhar R$ 700,88 e os homens, R$ 1070,07. Na comparação entre os dois grupos, a renda das mulheres aumentou R$ 88 e dos homens, R$ 91,89.
Segundo o estudo, apesar das diferenças salariais houve ligeira aproximação entre a renda de homens e mulheres. Em 2002 elas recebiam 62,6% da renda masculina e em 2008 passaram a receber 65,5%. A pesquisa alerta que apesar da ligeira aproximação salarial, é preciso investir em ações específicas para enfrenta as desigualdades de gênero.
“A gente pode falar de avanços, porque as mulheres estão cada vez mais no mercado de trabalho, mais na política. Houve avanços, mas tímidos”, afirmou a coordenadora da pesquisa, Natália Foutoura.
O estudo explica que a diferença de renda entre os dois grupos se explica pela menor jornada de trabalho das mulheres, pela ocupação de postos de trabalho de má qualidade e pelas barreiras para a ascensão profissional das mulheres nos ambientes de trabalho.
De acordo com a pesquisa, as mulheres têm mais anos de estudo do que os homens. Em 1998, as trabalhadoras com 15 anos de idade ou mais tinham em média seis naos de estudo, enquanto os homens na mesma faixa etária, haviam estudado por 5,8 anos em média.
Em 2008 o tempo de estudo nos dois grupos aumentou, mas as mulheres continuaram tendo mais anos de estudo. Entre as jovens de 15 a 17 anos, 56,8% frequentavam o ensino médio, enquanto entre os jovens de mesma idade, esse percentual era de 44,4%.
A mesma realidade se repete no ensino superior. Em 2008, das mulheres entre 18 e 24 anos, 15,7% frequentavam o ensino superior, enquanto o percentual de homens na mesma faixa etária era de 11,8%.
As mulheres também trabalham mais horas nos afazeres domésticos do que os homens. Pela pesquisa, em 2001, as mulheres se dedicavam por 29 horas aos trabalhos da casa e os homens 10,9 horas. Isso representa uma diferença de 18,1 horas.
Em 2008, as horas dedicadas as tarefas domésticas reduziram em ambos os grupos, mas as mulheres continuaram trabalhando mais horas que os homens. Elas dedicavam 23,9 horas aos trabalhos domésticos e eles 9,7 horas. Nesse caso a diferença entre homens e mulheres é de 14,2 horas.
Desigualdade ainda pesa contra as mulheres no mercado de trabalho
A segunda década do século 21 começa para as mulheres como terminou o século passado. Elas trabalham mais e ganham menos, ainda que sejam mais qualificadas do que os homens. Dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego mostram que, no mercado formal, as mulheres de todos os níveis de escolaridade ganham menos do que os homens com o mesmo grau de formação.
Entre os analfabetos, a renda média mensal em 31 de dezembro de 2008 era de R$ 614,80 para os homens, enquanto para as mulheres trabalhadoras ficava em R$ 506,95.
Esse fenômeno se verifica entre os trabalhadores com formação em nível superior. A média salarial para esse grau de instrução, à época, era de R$ 3.461,82. No caso dos homens, essa renda subiria para R$ 4.623,98. Se o assalariado fosse mulher, o salário seria de R$ 2.656,47.
Para o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, professor titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, ligada ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existe no mercado de trabalho uma espécie de “segregação ocupacional” na qual as mulheres estão em posições de menor prestígio, formalização e proteção social.
A socióloga Eva Blay, ex-senadora (PSDB-SP) e professora titular aposentada da Universidade de São Paulo (USP), assinala que as mulheres estão subindo lentamente na hierarquia dos postos do mercado de trabalho. Ela aponta que as relações de trabalho ainda são marcadas pelo machismo. “O mercado resiste em contratar uma mulher por medo de que ela não consiga se impor aos demais trabalhadores homens.”
Segundo a acadêmica, ainda pesa contra as mulheres preconceitos como a falsa ideia de que elas faltam mais ao serviço do que os homens.
Além do trabalho fora de casa, as mulheres precisam se dedicar a atividades não remuneradas, como os afazeres domésticos. Segundo dados do IBGE referentes a 2007, as mulheres de 10 anos de idade ou mais se dedicavam 22,3 horas semanais aos afazeres domésticos contra 5,2 horas dos homens.
“Estamos muito longe de ter uma cultura em que marido e mulher cooperem com esses afazeres”, lamenta Neuma Aguiar, professora de sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
“A gente é invisibilizada. Parece que lavar e consertar roupa, preparar comida ou cuidar da pessoa doente estão descoladas da produção da riqueza, mas não estão”, critica Fátima Lucena, professora do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
“Participamos da produção da riqueza, mas na hora da distribuição perdemos muito mais do que os homens”, lamenta. Fátima Lucena, no entanto, faz uma autocrítica: “A mulher não é somente vítima, mas também construtora das relações sociais”.
A socióloga Marlise Matos, chefe do Departamento de Sociologia da UFMG, concorda. “Homens e mulheres são socializados em uma cultura tradicional, conservadora, patriarcal, machista. Esse é o caldo cultural que não é privilégio dos homens. Há um ciclo de retroalimentações do qual as mulheres têm responsabilidade porque não quebram”, avalia.
(Agência Brasil)
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