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Uso consciente do dinheiro, por que falar disso?

Posted at 09/08/2011 | By : | Categories : Em Ação | Comentários desativados em Uso consciente do dinheiro, por que falar disso?

Uso consciente do dinheiro, por que falar disso?

(Conteúdo gentilmente cedido pelo SESI – Serviço Social da Indústria)

Naná Prado*, especial para o SESI

Na última década, a humanidade aumentou seu consumo de bens e serviços em 28%. Em 2008, foram vendidos no mundo 68 milhões de veículos, 85 milhões de refrigeradores, 297 milhões de computadores e 1,2 bilhão de telefones celulares[i]. Para fazer esse mercado girar, a população usou mais dinheiro, obteve mais crédito e adquiriu mais dívidas. (Afinal, não dá para afirmar que todos consomem sem empréstimos e pagam suas contas em dia.)

O consumo, que em sua vertente positiva aquece e movimenta a economia, também pode prejudicá-la, uma vez que em excesso provoca inflação, ou seja, os produtos tornam-se escassos no mercado e acontece o fenômeno do aumento de seus preços. Isso acarreta a perda do poder aquisitivo da moeda, o dinheiro vale cada vez menos, sendo necessária uma quantidade cada vez maior dele para adquirir os mesmos produtos. A economia, nesses casos, pode entrar em um perigoso ciclo vicioso, obrigando a realização de reajustes periódicos de preços e salários, com o seu consequente agravamento.

Mas, felizmente, os economistas perceberam que uma das medidas de contenção da inflação sem, contudo, coibir o consumo e o crescimento, é a aposta na educação financeira. E por que ela é importante?

No mundo inteiro, o mercado financeiro está cada vez mais sofisticado. O público tem acesso a novos produtos numa situação que chega a ser insustentável. Além disso, a maior complexidade e variedade de produtos financeiros; as facilidades de acesso a ativos de risco; a maior expectativa de vida após a aposentadoria, com maior expectativa de gastos (encarecimento das tecnologias de saúde) são algumas das questões apontadas para a urgência de tratar do tema. Também é preciso levar em conta a expansão e popularização do crédito, o superendividamento e o aumento dos golpes financeiros (eletrônicos ou divulgados via internet).

Programa de Educação Financeira

Nos países desenvolvidos, a Educação Financeira é de responsabilidade das famílias. A função das escolas é reforçar a formação que o aluno adquire em casa. Segundo a historiadora política Cássia D’Aquino, especializada em Educação Infantil, no Brasil, infelizmente, a Educação Financeira não é parte do universo educacional familiar, tampouco escolar. Assim, a criança não aprende de verdade a lidar com o dinheiro nem em casa, nem na escola.

As consequências deste fato são determinantes para uma vida de oscilações econômicas, com graves repercussões tanto na vida do cidadão quanto na do país.

Foi pensando em superar tudo isso que Cássia D’Aquino criou, em 1996, o Programa de Educação Financeira (www.educacaofinanceira.com.br). Este Programa adaptou ao currículo brasileiro os quatro pontos principais[ii] da Educação Financeira.

De modo multidisciplinar, e atendendo a crianças dos dois aos 17 anos, o Programa está formando jovens capazes de poupar e de planejar gastos. Aplicado há 15 anos em escolas públicas e privadas por todo o país, os resultados têm sido significativos para promover mais entendimento sobre a renda familiar e planejamento orçamentário de gastos e aquisições.

Estímulo público

A temática da Educação Financeira entrou com força na agenda pública da economia nacional. Em novembro de 2007, um grupo de trabalho (GT) com representantes do Banco Central do Brasil, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), da Secretaria de Previdência Complementar (SPC) e da Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) foi formado para desenvolver uma proposição de Estratégia Nacional de Educação Financeira. Coube ao GT elaborar um inventário nacional de ações e de projetos de Educação Financeira no país, além de uma pesquisa que mapeasse o grau de conhecimento financeiro da população brasileira.

A proposta do governo brasileiro é fazer com que a Educação Financeira estimule consumidores e investidores a aperfeiçoarem sua compreensão dos produtos financeiros; e também desenvolverem habilidades e segurança para se tornarem mais conscientes dos riscos e oportunidades financeiras. No fim das contas, o que se espera é que consumidores e investidores façam suas escolhas com consciência e saibam onde buscar ajuda, melhorando assim a relação com suas finanças.

Segundo o Grupo de Trabalho, as medidas para proteger os consumidores dos produtos financeiros, por meio de regulação, fiscalização e sanção, serão tanto mais efetivas quanto maior for a sua sincronia com os esforços educacionais.

Outro ponto de destaque para o GT é que a inclusão social aumenta quando as pessoas passam a ter mais conhecimento das finanças pessoais. A educação pode atuar diretamente nas variáveis pessoais e sociais, contribuindo para formar ou amadurecer uma cultura de planejamento de vida, capaz de permitir que a pessoa, conscientemente, possa resistir aos apelos imediatistas e planejar no longo prazo as suas decisões de consumo, poupança e investimento.

A Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF) pretende contribuir para um consumo financeiro mais responsável da população. Isso impacta no consumo de uma forma geral e deve ser observado atentamente. Além de ações destinadas aos adultos, a ENEF prevê ações voltadas especificamente para a Educação Financeira nas escolas, seguindo a tendência mundial.

Claro que os efeitos destas ações serão percebidos a médio e longo prazo, mas o fato interessante é que o uso consciente do dinheiro e do crédito é importante para qualquer sociedade e essencial para aquelas em desenvolvimento, que se preocupam com a sustentabilidade da sua economia.

O consumo como ponto transformador

Embora haja melhoras notáveis na felicidade quando as pessoas de nível de renda mais baixa ganham mais – porque sua segurança econômica aumenta e seu leque de oportunidades se amplia –, à medida que a renda aumenta, esse poder de compra extra se converte de forma menos marcante em aumento de felicidade. Em parte, é possível que isso aconteça pelo fato das pessoas se habituarem ao nível de consumo a que estão expostas. Produtos que até então eram tidos como de luxo podem, com o passar do tempo, ser encarados como merecidos ou mesmo necessários.

É comum, em roda de amigos, ouvirmos conversas sobre os sites de compra coletiva. Uma pessoa comenta sobre uma “oferta imperdível”. Outra colega lembra a real necessidade daquele produto. “Você estava precisando disso ou só vai comprar porque está barato?”, questiona. A conversa vai longe. “Até que ponto essa compra é necessária? Vou realmente usar? Mas se não puder fazer algumas extravagâncias, às vezes a vida fica muito chata. Poxa, eu trabalho tanto, será que não posso comprar algo por impulso de vez em quando? Mas e os recursos naturais que são necessários para fabricar esse produto. Não é justo comprar sem que haja uma utilidade. E se eu comprar e doar depois?”

Mas por que será que é tão difícil mudar o comportamento de consumo? Muita gente diz que só mudamos quando o “calo aperta”, ou quando “mexem no nosso bolso”. Outros pontos deveriam ser levados em consideração quando o assunto é consumo consciente do dinheiro. Todo consumo tem impactos que afetam, positiva e negativamente, de uma forma ou de outra a todos, inclusive o indivíduo que está consumindo. O consumidor, segundo pesquisas do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, tem o poder de transformar a sociedade. Se o consumidor for consciente, pode servir de exemplo e mobilizar outras pessoas na direção da sustentabilidade.

Nosso estilo de vida, quando marcado por um consumo exagerado, pode ter efeitos prejudiciais que não melhoram o bem-estar: aumento do estresse no trabalho, doenças e, claro, dívidas.

Por que fazemos dívidas? Por que gastamos além do que ganhamos? Sabemos, de fato, quanto podemos gastar? Por onde começar?

O primeiro passo para o uso consciente do dinheiro e do crédito – e de qualquer outro recurso – é repensar. Desligar o “piloto-automático” e refletir sobre as reais necessidades que temos, sobre os significados do que consumimos e sobre nossa relação com a realidade. Cuidar do orçamento não é só anotar ganhos e gastos. Antes de tudo é pensar sobre sua vida, escolher prioridades e ser consciente na hora de gastar.

Também é preciso cuidado com os pequenos gastos: o dinheiro que usamos diariamente em despesas que parecem pequenas, ao final de um ano poderia pagar uma viagem de férias, ou fazer uma bela diferença na poupança.

Não pense só no valor da prestação, calcule o preço total da compra e negocie um desconto para pagamento à vista. Hoje, parece normal pagar tudo com cartão; e ter crédito é sinal de status. Mas será que vale a pena se endividar só para ter um produto a mais?

Quando reutilizamos, doamos ou prolongamos o uso de um produto, além de economizar, beneficiamos a sociedade e o meio ambiente, e damos o devido respeito aos recursos naturais e humanos usados para produzi-lo.

Questionamentos interessantes podem ser feitos sempre que vamos consumir alguma coisa, seja um produto ou um serviço. O Instituto Akatu divulga alguns documentos sobre o consumo consciente do dinheiro e do crédito e, ainda, propõe que todo consumidor repense o ato de consumo.

Para o Instituto, são seis as fases do consumo. Por que comprar? Definir a real necessidade de uma compra. O que comprar? Definir as características do produto ou serviço que se quer comprar, bem como a qualidade do que se quer. De quem comprar? Definir de qual empresa quer comprar, considerando-se os atributos de responsabilidade social e ambiental. Lembre que os selos em produtos podem ajudar na hora de escolher. Como comprar? Definir se a compra será feita perto ou longe de casa, em uma loja maior ou menor, se será a crédito ou à vista. Como usar? Uma vez feita a compra, significa definir a forma de utilização do produto ou serviço comprado. Como descartar? Ao decidir comprar um novo produto para fazer a mesma função, decidir se o produto antigo será doado, encaminhado para reciclagem, ou descartado como rejeito.

Alguns objetivos podem servir de norte para pessoas que realmente querem repensar o uso do dinheiro. A educação dos filhos, a aposentadoria, a compra da casa própria, uma viagem ou a compra de um carro são alguns dos exemplos usados para mostrar que, quando estabelecemos prioridades e prazos realistas, podemos alcançar uma meta.

Nesse processo é fundamental conhecer as despesas e receitas de sua família. A sugestão é: anote todos os gastos e compare com os ganhos. Faça isso durante um mês. Você vai se surpreender ao perceber quanto dinheiro está sendo desperdiçado. Chame sua família para participar e conte seus planos. Depois disso, vai ficar muito mais fácil convencê-los a pensar antes de adquirir um bem de consumo. Afinal, será que vocês realmente vão precisar dele? E tem mais: cada centavo poupado vai deixá-lo mais próximo de alcançar seu objetivo e, por isso, cortar pequenas despesas, como a ‘cervejinha’ do fim de tarde é uma tarefa difícil, mas que pode contribuir lá na frente.

Outra dica que sempre vale é livrar-se das dívidas. Os juros do cheque especial ou do crédito podem virar receita se, em vez de consumir, você aplicar o dinheiro para comprar à vista mais adiante.

As dicas, sugestões e reflexões são inúmeras. O que vale é que o tema está em pauta, estamos revendo hábitos de consumo, repensando como gastamos os recursos – naturais ou não – avaliando nosso estilo de vida e cuidando da vida. É isso que vale.

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[i] O estado do Mundo 2010 – Do Consumismo à Sustentabilidade

[ii] Os quatro pontos principais da Educação Financeira http://www.educacaofinanceira.com.br/default.asp

* Naná Prado é jornalista formada na Universidade Estadual Paulista (Unesp), pós-graduada em Gestão Ambiental no Senac. Atuou como coordenadora de Comunicação para Projetos no Instituto Akatu pelo Consumo Consciente (www.akatu.org.br) e foi editora-chefe do Portal Mercado Ético. Produz reportagens e artigos na área de sustentabilidade e tem experiência em coordenação de projetos de comunicação e educação, edição de textos de Relatórios Anual e de Sustentabilidade para empresas e organização de Congressos e Fóruns na área de Meio Ambiente.

(Mercado Ético)

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