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Investimento verde pode ser a saída para a crise fiscal grega

Posted at 23/02/2012 | By : | Categories : Artigos | Comentários desativados em Investimento verde pode ser a saída para a crise fiscal grega

Investimento verde pode ser a saída para a crise fiscal grega

Sérgio Abranches, do Ecopolítica

A melhor maneira de ajudar a Grécia a resolver seus problemas econômico-financeiros, que são de longo prazo, seria os países da Europa fazerem um programa de investimentos também de longo prazo, em áreas novas e promissoras.

Seria bom para a Grécia, porque geraria emprego, renda e receitas tributárias, ajudando-a a ir equacionando o dilema da insolvência em uma economia anêmica pela severidade dos cortes decorrentes de um forte ajuste fiscal forçado. Seria bom para a Europa, porque seriam investimentos rentáveis. Na área de energias renováveis, principalmente solar e eólica, a própria Europa poderia ser consumidora da eletricidade gerada pelos novos empreendimentos, gerando mais renda para a Grécia e benefícios para a Europa.

Até agora, essa foi a única ideia boa a respeito da Grécia que ouvi saída das articulações políticas para montar a operação de salvamento do país. Nesta e nas outras crises similares, os economistas e tecnocratas se dividem em dois grupos. Os “fiscalistas”, pedem sacrifício fiscal, suficiente para criar espaço para o pagamento da dívida e evitar seu crescimento adicional. Os “desenvolvimentistas” pedem mais gasto público, para que haja crescimento e o país possa pagar a dívida “sem sacrifício” adicional. Os fiscalistas não se dão conta de que um severo ajuste fiscal em uma economia em recessão e sem crédito só pode levar à anemia econômico-financeira e à derrocada. A recuperação é tão demorada, e o stress social tão elevado, que a governabilidade e a estabilidade política são devorados pela revolta social. Os desenvolvimentistas não se dão conta de que mais gasto em uma economia endividada acima de sua capacidade de pagamento e sem crédito só pode levar à estagflação e à derrocada. A revolta social não é aplacada com gastos públicos cada vez mais estéreis. Após um breve período de alívio, ela explode, em geral, propiciando a tomada do poder por governos muito conservadores, não raro autoritários. Esse tipo de saída cria um ambiente propício ao crescimento da extrema direita.

A ideia de compensar o impacto recessivo do ajuste não com gasto, mas com investimento produtivo internacional e, principalmente, em áreas que levam a um ciclo novo e sustentável de crescimento, representa uma saída viável desse dilema aparentemente insolúvel entre fiscalistas e desenvolvimentistas. O investimento vem de países e empresas que têm mais condições de investir que o destinatário, em crise profunda. Gera, renda, emprego e receita tributária que permitem revitalizar a economia e ajudá-la a a buscar o equilíbrio fiscal, em uma situação dinamicamente mais positiva.

Essa ideia surgiu em uma breve declaração do presidente da Alemanha, Christian Wulff, que mencionou, como exemplo, investimentos em energia solar. Apesar de ter mais potencial que a Alemanha, a Grécia tem um parque de energia solar muito menor.

Infelizmente, ele fez essa declaração apenas algumas horas antes de o ministério público alemão pedir o fim de sua imunidade presidencial, para processá-lo por uma operação financeira ainda nebulosa quando era governador do estado da Baixa Saxônia. O escândalo envolve um empresário seu amigo e ameaças ao editor do jornal Bild, numa tentativa de abafar matéria sobre suas finanças pessoais. Hoje, Wulff renunciou ao cargo de presidente, causando um delicado problema político para Angela Merkel. Ela terá que escolher seu sucessor para em um momento particularmente delicado. Merkel, cuja posição estava por um fio, com a popularidade em queda, recuperou-a por sua atuação na liderança do enfrentamento da crise do Euro. Mas, de qualquer forma, Wulff era escolha sua.

Voltemos, entretanto, à ideia de Wulff para a Grécia. É parte da tragédia grega que ela tenha saído da análise de um ator de pouco poder. O presidente da Alemanha é uma figura quase decorativa, ao contrário da presidência francesa, que é muito poderosa. E um ator que estava para sair de cena de forma desairosa. Mas continua sendo uma boa ideia.

A crise da Grécia tem dinâmica conhecida e o remédio que está sendo aplicado, resultado da vitória dos fiscalistas, um resultado previsível. Crise similar, com a mesma overdose de remédio fiscal, destroçou a economia argentina. Míriam Leitão tem insistido nesse ponto em sua coluna, sem defender a irresponsabilidade fiscal. É evidente que a sangria fiscal e o endividamento descontrolado têm que cessar. O problema é o modo como se quer frear o processo. Sem algum tipo de amortecimento, o freio em excesso frita.

Miriam Leitão mostrou, por exemplo, que durante todo o ano de 2011 – o terceiro de recessão, a Grécia registrou números muito ruins em todos os trimestres (-7,4%, -8%, -5% e, agora, -7%). Já é resultado do aperto de crédito e da hiperdisciplina fiscal. Mas essa retração não começou no ano passado. Houve “recessão de 2% em 2009; 4%, em 2010; 5% em 2011”. E o nível de atividade vai continuar a cair.

Como uma economia em retração pode pagar alguma coisa? O desemprego, em 20,9% (de jovens é 48%), só vai aumentar, a renda real vai cair, a economia vai definhar. Escrevi sobre o caso da Argentina, na época, mostrando como essa insistência no ajuste piorava, ao invés de melhorar a crise. Era um exemplo típico da lógica dos “ajustes que desajustam”.

O endividamento cresce, por negligência geral, a dívida atinge um ponto que eleva a percepção de risco de calote no mercado ao ponto crítico. O país não consegue rolar a dívida. Começa uma dura negociação, com a economia já em crise, sitiada. Exige-se severo ajuste fiscal para gerar recursos que garantam o pagamento da dívida. O país entra em crise política, uma parte das forças políticas prefere a moratória ao sacrifício. Ganha o lado que apóia o ajuste. A economia entra em retração mais severa. O risco não diminui proporcionalmente ao sacrifício da economia. Os recursos continuam não fluindo. O risco de moratória não diminui, pede-se mais esforço fiscal, que gera mais recessão. Com alguns lapsos de tempo, repete-se esse ciclo de ajuste-desajuste-mais-profundo e, se não houver uma ruptura que encontre uma saída de retomada do crescimento, o resultado é o colapso da economia e o calote mais desordenado e oneroso. Como na imagem abaixo.

A saída de aumento de gastos, defendida pelos “desenvolvimentistas” não rompe esse círculo vicioso provocado pelos excessos fiscalistas. Ao contrário, produzem uma crise ainda mais grave. A recuperação pode ser ainda mais demorada.

A saída do investimento como parte do ajuste tem precedentes melhores. Nas negociações de 2008, no olho do furacão da sub-prime no EUA, Bush defendia um cheque em branco para salvar os bancos. Não houve a clássica clivagem “fiscalistas” vs “desenvolvimentistas”. Havia consenso pelo salvamento dos bancos. Mas Obama, recém-eleito, exigiu que uma parte do pacote, em torno de 5%, fosse usada para apoiar o investimento em energias renováveis e tecnologias limpas.

A parte embolsada pelos bancos virou o que os economistas chama, em inglês, de “moral hazard”, eu diria, em bom português, mau precedente ou desmoralização institucional. Os bancos se livraram dos problemas mais agudos, voltaram a cometer os mesmos erros e a pagar gratificações abusivas a seus executivos.

A parte destinada à economia verde, ajudou o EUA a sair da recessão, gerou empregos de boa qualidade e que pagam salários acima da média. Esta é a verdadeira terceira via. A única que leva, realmente, à retomada do crescimento, já no caminho do desenvolvimento sustentável.

Meu comentário para a CBN esta aqui.

(Ecopolítica)

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