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A Cidade Sustentável

Posted at 18/02/2012 | By : | Categories : Artigos | Comentários desativados em A Cidade Sustentável

A Cidade Sustentável

Ermínia Maricato*

A questão ambiental se impôs nas agendas nacional e global(1)

É de conhecimento amplo que o padrão capitalista de produção e consumo, (e aí poderíamos incluir as sociedades socialistas produtivistas), vigente nos últimos 200 anos, desconhece limites para a exploração de recursos naturais, consumo de energia e poluição de terras, águas e ar, tornando-se absolutamente insustentável para o futuro da humanidade e do planeta. Numa sociedade onde a mercadoria se generaliza a ponto de marcar como tal o próprio trabalhador, a felicidade é identificada com o ato de possuir ou consumir, novas necessidades são criadas por força do mercado. Reverter este padrão não é tarefa banal.

A crise ambiental se impõe na agenda política do final do século XX e início do século XXI com um diferencial (mas necessariamente em parceria), com a crise social e econômica promovida pelo desemprego e precarização do trabalho decorrentes da reestruturação produtiva do capitalismo. Aquecimento global, agressão à camada de ozônio, elevação do nível do mar, desertificação de terras, assoreamentos de cursos d’água, são evidências científicas do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) e entraram na agenda para ficar(2).

Além de inviável, esse padrão produtivo é injusto: alguns consomem, de forma conspícua marcada pelo desperdício, mais do que necessitam e muitos não consomem o mínimo para a sobrevivência. E sabemos que o planeta não tem recursos para que todos consumam de acordo com o padrão americano vigente. Há consenso sobre a necessidade de mudança, mas não há consenso sobre as causas e também sobre a profundidade das medidas a serem tomadas. Há resistências – ou interesses – muito fortes contra as mudanças, e elas são especialmente fortes no meio urbano. E mais ainda nos países emergentes e periféricos.

Apenas para dar uma ideia de fatos que denunciam um estado de emergência, vale à pena lembrar que uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2002 mostrou que aproximadamente 60% dos municípios brasileiros apresentavam assoreamento dos cursos d’água (70% com desmatamento das matas ciliares e 56% com erosão e deslizamentos de encostas), 74% despejam esgotos domésticos nos cursos d’água, 63% apresentavam contaminação do solo por uso de agrotóxicos, esgotos domésticos e chorume.

Utilizando um indicador menos sistêmico e isolado, porém paradigmático, podemos chegar à mesma conclusão sobre a urgência catastrófica da poluição da água em meio urbano. Pesquisas realizadas nos anos 90 trouxeram à tona uma evidência estarrecedora.

Se nos anos 60 constatou-se a presença de metais pesados na água considerada potável, submetida a tratamento, nos anos 90 constatou-se que o tratamento convencional não elimina a presença de poluentes fármacos, hormônios, disruptores endócrinos, herbicidas, em águas que recebem efluentes de ETES(3).

Há 40 anos, o Brasil consumia 5% dos agrotóxicos que os EUA consumiam. Em 2009, o Brasil tornou-se o maior consumidor de agrotóxico do mundo, com óbvio impacto sobre as águas também no meio urbano, mas especialmente sobre a segurança alimentar. Enquanto o mercado mundial de agrotóxicos cresceu 94% entre 2000 e 2009, o brasileiro subiu 192%(4). Foi negociado 1,06 milhão de toneladas de defensivos, segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola. Apenas 13 empresas transnacionais são responsáveis por 90% dessa produção. No entanto, nunca a palavra sustentabilidade foi tão pronunciada e, não pouco frequentemente, alardeada exatamente por aqueles que mais a violentam. O desafio da FISENGE ao debater a cidade sustentável é o desafio do Brasil e do mundo de transformar um padrão social, econômico, cultural, político e ambiental insustentável.

Leia o documento na íntegra.

Notas:

(1) A autora agradece as indispensáveis colaborações de: engenheiro, e professor da UFABC, Francisco Comarú; urbanista e professora da PUC de Campinas, Laura Machado de Mello Bueno; e engenheiro Clovis do Nascimento, Secretário Geral da FISENGE.
(2) Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), trata-se de um corpo de cientistas definidos pela United Nations Environment Programme (UNEP) e pela World Meteorological Organization (WMO) que visa fornecer um diagnóstico claro do conhecimento sobre mudança climática e seus potenciais impactos sócio-econômicos.
(3) Esses estudos são geralmente de universidades públicas. Somente em 2005, as concessionárias de saneamento foram obrigadas a avaliar outros parâmetros além dos sanitários, por Portaria da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), e deverão torná-los públicos conforme resolução da Agência Nacional de Águas (ANA). Ver a respeito BUENO, L. M. A água no ambiente urbano. In BIOIKOS 51-55 Vol. 19, nos1 e 2, jan/dez 2005.
(4) Reportagem de Débora Prado. Revista Caros Amigos, de 17/09/2010

* Ermínia Maricato é arquiteta e urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura da USP. Foi secretária executiva do Ministério das Cidades (2003 a 2005) e secretária de Habitação e Desenv. Urbano de São Paulo (1989-1992)
(Adital)

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